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Notícias > Leia entrevista com Carlos Orsi Martinho sobre Nômade

Data: 10/02/2011


ENTREVISTA COM O AUTOR DO LIVRO NÔMADE
CARLOS ORSI MARTINHO


Carlos Orsi Martinho aprecia aventuras, acreditou num dos seus sonhos e pode compartilhar com os jovens e adolescentes dos dias de hoje o seu mais recente livro de ficção, “Nômade”, muito bem ilustrado por Renato Alarcão. A obra Nômade – uma aventura no espaço é uma leitura atrativa, um texto que leva a imaginação do leitor para um mundo novo, onde cada fase é extremamente pitoresca. Ao ler a obra Nômade, o público jovem vai ter horas de aventura, porque o livro provoca uma sensação de movimento com os passos dados pela tripulação da nave Nômade. Os personagens, todos jovens e adolescentes, não conheceram o planeta Terra, vivem dentro da nave, viajando pelo espaço, conhecendo outros planetas, galáxias e sendo conduzidos por um supercomputador que lhes dita as regras.
Eles nasceram e cresceram dentro da população que habita a nave Nômade, que partiu da Terra há 200 anos. Conforme disse o próprio autor, Carlos Orsi Martinho, ele se inspirou na saga dos Robinsons suíços que saem de um país com sua família para colonizar novas terras e passam por momentos de grandes aventuras. Também nos contou que outra família Robinson também o inspirou: aquela do seriado dos anos 60, “Perdidos no Espaço”.
Muitas gerações nasceram e cresceram dentro da Nômade, mas agora um conflito está deixando os remanescentes sem direção, exigindo que estes lutem pela sobrevivência no espaço, o único lugar que eles conheceram até hoje.
O livro Nômade está sendo aprovado pelos professores do ensino médio e recentemente o Colégio Leonardo da Vinci de Jundiaí adotou a obra para as disciplinas Literatura e Língua Portuguesa.  A jornalista Sonia Castro entrevistou o autor Carlos Orsi Martinho para permitir aos leitores esclarecimentos de como ele preparou esta obra que já está conquistando adolescentes de todo o país.


Sonia Castro: Por que usou nomes da mitologia grega para compor as personagens?

Carlos Orsi Martinho: Eu tinha acabado de reler a Ilíada e, como tanto os personagens quanto as tribos precisariam de nomes, achei que valeria a pena em apropriar daqueles usados por Homero. Também com a esperança de que alguns leitores curiosos acabassem pesquisando por conta própria descobrindo o épico grego e a mitologia.

Sonia Castro: Lendo o seu livro observei que tem alguma coisa parecida com a série “Perdida no Espaço” produzido nos anos 60. A série citada marcou muito a adolescência e a juventude de uma geração com a família Robinson navegando em uma nave altamente tecnológica para a época, buscando novos mundos e nova gente pelo espaço. Os Robinson vítimas de uma sabotagem durante a viagem pelo famoso e divertido vilão Dr. Smith, deram aos telespectadores saborosas aventuras durante muitos anos. Poderia me explicar porque a nave Nômade saiu em viagem 200 anos atrás do planeta Terra? Foi por causa de alguma hecatombe nuclear? E os adolescentes da sua história eram os únicos remanescentes da Terra?

Carlos Orsi Martinho: Perdidos no Espaço não foi, ao menos conscientemente, uma de minhas referências, mas é claro que a história do meu livro se encaixa nessa tradição das narrativas de viagens empreendidas por famílias -- como os Robinsons Suíços, por exemplo. Em Nômade não tem um Dr. Smith! (risos)
A questão do motivo da viagem fica propositalmente em aberto. Mas dados os recursos envolvidos no lançamento da Nômade, eu diria que ela não é uma nave de refugiados ou fugitivos -- pelo contrário, representa um projeto comum da humanidade. Partir para novas terras e construir novas culturas é uma das missões mais nobres da nossa espécie, e uma que creio que a humanidade, no futuro em que Nômade se passa, decidiu levar muito a sério.

Sonia Castro: Como são os adolescentes que vivem na nave Nômade? Eles têm as mesmas características dos seres humanos? Como foram educados e criados longe dos pais, qual o referencial de vida deles, sonhos, etc.

Carlos Orsi Martinho: Eles tinham os pais, na medida em que havia os pseudroides controlados pela mente dos pais. Eles são muito parecidos com adolescentes da atualidade, mas até por conta da situação em Nômade -- onde a vida de todos depende do trabalho de cada um -- têm mais responsabilidades. Acho que são mais maduros que seus correspondentes em "nosso" mundo. As opções, por exemplo, de carreira são bem limitadas, já que eles nascem com um espaço a preencher na estrutura que mantém a nave funcionando, mas são educados para aceitar isso.  O referencial de vida de todos é a missão da nave: chegar a algum lugar com segurança. E no seu destino construir um novo mundo, justo e próspero.

Sonia Castro: Notei ao ler a obra que alguns deles revelam sentimentos de carinho, de solidariedade e de conhecimento. Foi uma conotação proposital para o leitor se situar no seu âmago ao identificar-se com os novos habitantes da nave ?

Carlos Orsi Martinho: Sim! Os garotos são profundamente humanos. A educação deles tem esse lado: é preciso preservar a riqueza das emoções humanas, que são necessárias para evitar que a nave vire um inferno, e que serão necessárias para construir o novo lar no planeta de destino.

Sonia Castro: Por que você mostrou no seu livro uma ligação com um mundo primitivo (caça ao javali), armas de pedra, entre outros objetos mais antigos, e também outros altamente tecnológicos?

Carlos Orsi Martinho: Isso foi parte do plano da obra. Eu queria escrever uma história que recapitulasse todos os gêneros dos romances juvenis no gênero aventura. Minha pretensão era mostrar desde as aventuras na selva de Tarzan até as narrativas mais contemporâneas, envolvendo realidade virtual. Queria que o livro tivesse um pouco de cada tipo, de cada estilo de aventura que existe.

Sonia Castro: No seu livro, o leitor pode entender que aqueles que sobraram, os jovens vivos não são pseudroides e que ainda pensam por si mesmos. Mas eles sentem falta de um mentor ou coisa assim. Como você explica a ausência de direção durante 14 anos. Um adolescente não teria necessidade de uma direção de pais, mestres ou tutores adultos?

Carlos Orsi Martinho: Os pais deles estavam presentes, só que usando corpos artificiais. É por isso que Helena fica tão chocada quando vê os pais paralisados em casa quando vai procurá-los. Ela não sabia que eles tinham corpos artificiais. Os pais seriam pseudroides também porque estavam doentes em tratamento dentro de bolhas especiais. Apenas o cérebro deles é que funcionavam perfeitamente e eles davam suas ordens aos filhos através do personagem Nestor, um supercomputador de comando.

Sonia Castro: Por que a nave Nômade não para em algum lugar? Por que a população que existe na nave não conquistou a cura, sendo que nesta época a medicina deveria ser altamente evoluída e com mais recursos?

Carlos Orsi Martinho: Não há onde parar. E a nave não seria capaz disso! Ela, empurrada pelo raio de luz que parte do Sol, é obrigada a segui-lo até o fim. Além disso, o espaço entre os planetas é muito grande: hoje em dia, o planeta fora do sistema solar mais próximo que conhecemos fica a 90 trilhões de quilômetros daqui. Viajando a um milhão de km/h, você levaria 11 mil anos para chegar lá. É por isso que a Nômade  precisa de várias gerações de tripulantes para chegar a seu destino. Quanto à cura, os adultos estão sendo curados, mas o problema é que o processo requer tempo. Envenenamento radioativo e queimadura radioativa, problemas que afligiram os adultos, são muito graves. De modo que nem mesmo a medicina do futuro de Nômade foi capaz de curá-los num curto prazo.

Sonia Castro: O que é um pseudroide?

Carlos Orsi Martinho: É uma palavra que inventei, misturando "pseudo" (falso) e "androide" (robô de aparência humana). Os pseudroides são corpos artificiais que as mentes dos tripulantes de Nômade podem comandar, quando seus corpos reais estão incapacitados por algum motivo.

Sonia Castro: Como surgiu a ideia de você projetar uma população num futuro distante do planeta de origem?

Carlos Orsi Martinho: Essa é uma ideia bem frequente na ficção científica. A inspiração direta para Nômade surgiu de um livro sobre viagens espacial norte-americano que reúne artigos de diversos cientistas especulando sobre como poderão ser as viagens para estrelas distantes. O esquema de Nômade usa várias das sugestões feitas por esses especialistas.

Sonia Castro: Seriam os remanescentes (adolescentes Peleu, Helena, Febe, Autólico, e outros), clones, projetos, réplicas, já que estariam dentro de um quadro solitário vivendo a deriva no espaço, captando apenas o que o mentor computadorizado lhes mostra?

Carlos Orsi Martinho: Não, não é isso (ao menos, não era essa a minha intenção para a história). Eles são pessoas reais, que estão sendo preparadas para semear a semente humana em uma estrela distante.

Sonia Castro: Os habitantes da Nômade não questionam um Criador (no caso Deus) como mentor de suas existências? Eles sentem falta do supercomputador Nestor, quando estão em dificuldades e sozinhos. Seria aqui um vácuo que existe entre a criatura e o Criador? Que os seres humanos precisam sempre de um mentor, um criador, um referencial para seguirem em frente?

Carlos Orsi Martinho: Eu busquei manter o livro agnóstico em relação à questão de Deus; não existe religião a bordo de Nômade, embora cada povo tenha seus rituais. Os jovens sentem falta de Nestor porque esperam que ele esteja lá -- estão habituados a lidar com ele, a serem vigiados e auxiliados por ele. É como um jovem de hoje que, quando tem uma dúvida, vai procurar na internet. Nestor é a internet deles. E eles ficam chocados quando descobrem que o mentor "saiu do ar".

Sonia Castro: Caminhamos para uma vida virtual, embora os seres humanos neguem isso. Mas sabemos que nosso dia a dia já é virtual. Sei que o avanço da tecnologia a cada ano deixa as pessoas mais solitárias. A divisão em tribos que você enfoca para preservar a diversidade também foi para propor que vale a pena observar que as pessoas ainda vivem bem em comunidade?

Carlos Orsi Martinho: Não pensei exatamente nisso. Minha opinião é de que o ser humano sempre viverá em comunidade, mesmo que venha a viver em comunidades virtuais. Talvez este dia se aproxime: o dia em que o melhor amigo de uma pessoa será alguém que ela nunca viu pessoalmente, mas com quem troca e-mails e mensagens de vídeo. E será que isso é tão diferente da época em que as pessoas se comunicavam trocando cartas com outras pessoas de cidades ou países diferentes? Vamos refletir sobre isso.

Sonia Castro: O final é muito sensível, eu achei lindo! Eu entendi que os remanescentes da Terra ainda buscarão paz e harmonia e os sentimentos mais profundos ficaram sempre preservados.

Carlos Orsi Martinho: É isso mesmo!

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